Reverendo admite que reunião com Bolsonaro não aconteceu

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O reverendo Amilton Gomes de Paula admitiu à CPI da Pandemia, nesta terça-feira (3 de agosto), ser falsa sua afirmação de que teve contato com o presidente Jair Bolsonaro. Em mensagens obtidas pela Comissão no celular do policial Luiz Paulo Dominguetti, os senadores descobriram conversas em que o religioso disse ter conversado com o presidente da República.

“Ontem falei com quem manda! Tudo certo!”, declarou Gomes em uma das mensagens ao PM que, na ocasião, tentava vender vacinas da AstraZeneca ao Ministério da Saúde, tendo uma empresa americana, a Davati Medical Supply, como intermediária.

Vários senadores quiseram saber mais detalhes sobre a reunião. O religioso reconheceu, constrangido, tratar-se de bravata, ou seja, de ter se gabado por algo que, na verdade, não aconteceu. A reposta provocou reação do Presidente da Comissão de Inquérito, Omar Aziz (PSD-AM):

— Eu tenho a convivência com muitos pastores, e, sempre, em todos os cargos que ocupei, a minha relação com todos os pastores do meu Estado sempre foi uma relação muito próxima e aberta. O senhor é a única pessoa que tem uma missão aqui, de todos nós, de levar a palavra de Deus. Como é que o senhor diz que é bravateiro? — indagou.

Um dólar

No seu depoimento, o reverendo afirmou que as vacinas foram inicialmente negociadas a US$ 3,50, valor que teria subido para US$ 17,50 e depois caído para US$ 11. Ele disse desconhecer oferta feita ao Ministério da Saúde pela empresa Davati no valor de US$ 10 por vacina.

O vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), mostrou ao depoente um documento da Davati, de 5 de março de 2021, oferecendo  vacinas pelo preço de US$ 10 e outro documento posterior, do próprio Amilton, de 14 de março, com oferta de US$ 11 por vacina, um dólar a mais. O documento teria sido enviado por Amilton ao ministério dez dias depois, em 24 de março.

— Nos chama atenção é que este valor coincide exatamente com o que o cabo Dominguetti denunciou a esta CPI. É exatamente a propina de US$ 1 por dose que lhe foi pedida por um servidor do Ministério da Saúde [Roberto Ferreira Dias] — avaliou Randolfe.

O reverendo disse ter recebido comunicação da Davati sobre atualização do valor da vacina de US$ 10 para US$ 11, mas, durante o depoimento, a Davati divulgou nota oficial que o contradisse. A empresa afirmou que a única oferta enviada ao governo brasileiro foi de US$ 10. “O presidente da Davati Medical Supply nega veementemente esta manifestação do reverendo Amilton”, diz a nota.

O advogado do depoente afirmou ter documento que mostra que a Davati teria dado poderes a Amilton para encaminhar “determinados documentos”. Ele entregou à CPI documento em que a empresa teria credenciado Cristiano Carvalho como consultor internacional e no qual a Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), da qual Amilton é presidente, também teria sido mencionada. Dois dias depois, Cristiano teria qualificado a Senah para representar a empresa. A senadora Soraya Tronicke (PSL-MS) afirmou que a empresa precisa esclarecer se nomeou ou não a Senah como sua representante.

Municípios

Por várias vezes, a testemunha negou que a Senah tenha negociado a compra de vacinas por municípios. Ele disse que não houve conversas com governadores ou prefeitos a esse respeito.

Randolfe Rodrigues mencionou carta de Renato Gabbi, um dos diretores da Senah, encaminhada à Associação dos Municípios do Acre, e citou reportagem da CNN sobre e-mail dirigido a vários municípios.

— Nenhum diretor da Senah, pelo Estatuto, tem autorização de fazer ou de conversar. Se ele fez, gostaria de ver o material, respondeu o depoente.

Depois, confrontado pelo senador com mensagens enviadas pela presidência da entidade a municípios, ele confirmou o encaminhamento de e-mails com a carta de recomendação da Davati a municípios, pela caixa de mensagens da Presidência e com o seu conhecimento.

Durante o depoimento, a página de internet da Senah saiu do ar. Amilton foi questionado por Randolfe e Eliziane Gama (Cidadania-MA) sobre a razão da indisponibilidade, mas ele disse não saber o motivo.

CNBB

Pressionado pelos senadores, o religioso reconheceu que a Senah, não é credenciada pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ao contrário do que constava em cartas assinadas por Amilton e que foram exibidas durante a reunião.

O senador Jean Paul Prates (PT-RN) contestou, também, o uso do brasão da Organização das Nações Unidas (ONU) pela Senah. Segundo dados apresentados pelo parlamentar, a entidade não teria autorização para uso do logotipo e que estelionatários usam instituições internacionais com o intuito de praticar golpes, como na questão das vacinas contra covid-19.

Uma das entidades parceiras da Senah, segundo Jean Paul Prates, é presidida por um advogado, Aldebaran Luiz Von Holleben, que reivindica na Justiça o direito de ser reconhecido como o Super-Homem Tupiniquim. O senador pediu que a CPI se debruce sobre essas entidades e investigue o que chamou de “crime de falsidade ideológica e estelionato”.

O reverendo Amilton reconheceu o erro.

— São ONGs e são sociedades civis organizadas que colocam, cedem as suas logos. Nesse caso aí, houve um erro da minha parte em ter colocado essas logos para trabalhar com vacinas — disse.

Para o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), o pastor agiu o tempo todo com objetivos financeiros.

— O senhor é um missionário que se apresenta como representante de várias instituições, mas nenhuma reconhece essa representação. O mais absurdo é o governo dar espaço a gente como o senhor. Nada disso daqui é verdadeiro: a oferta, a conversa de apoio humanitário… Estavam todos atrás de dinheiro no pior momento da vida do Brasil — avaliou.

Reuniões

Ao esclarecer sua participação nas tratativas com representantes do governo, Amilton Gomes informou que conheceu Luiz Paulo Dominguetti em 16 de fevereiro, quando este afirmou ter vacinas disponíveis para venda e pediu ajuda para tratar com o governo questões relativas a “trâmites para agendar reuniões e protocolar documentos”.

O pastor informou que esteve três vezes no Ministério da Saúde, nos dias 22 de fevereiro, 2 e 12 de março. No último encontro, segundo o depoente, houve a participação do então secretário-executivo da pasta, Elcio Franco, que perguntou se a Davati tinha alguma comprovação de que tinha as vacinas e de que era de fato representante da AstraZeneca no Brasil. Segundo a testemunha, em março, foi pedido várias vezes o envio de documentações comprobatórias, mas a Davati não se manifestou.

Ainda conforme o reverendo, a reunião no dia 12 foi compartilhada com o coronel Helcio Bruno de Almeida, presidente do Instituto Força Brasil. Dias antes, eles chegaram a tratar de outros assuntos, entre eles, a proposta que estava em tramitação no Congresso Nacional e que autorizava a aquisição de imunizantes contra a covid-19 por empresas para vacinação de seus funcionários e doação de 50% das vacinas ao SUS. O projeto não chegou a ser aprovado. Agência Senado

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