Professor Oleilson Targino de Almeida 30/12/2021
O ano de 2021 está chegando ao seu final, um ano novo desponta e me faz lembrar de quando criança, recém-chegado em Cascavel, ouvia falar que a água era milagrosa e quem dela bebesse sempre voltava. Tinham as cacimbas da Praça da Feira Velha, do Rio Novo e da Praça do Hospital com seus agueiros que abasteciam a cidade com água pura e saborosa. Recordo nesses locais o canto dos sabiás, bentivís, galos de campinas, canários amarelinhos. Estas recordações e outras reminiscências indicavam que Cascavel era bem servida de recursos hídricos.
Como era prazeroso andar na Serra da Mataquiri com sua exuberante vegetação e nascentes d’águas brotando das rochas, formando riachos e córregos de águas límpidas. A Serra, com sua porosidade, absorvia as águas da chuva transformando-se num divisor de águas onde, através de suas nascentes, durante o ano todo, liberava águas para o Rio Mal Cozinhado, para os Açudes Juarez de Queiroz e Guanaçés, para a Leiteira e para lagos e lagoas do Alto Luminoso, formando um verdadeiro Cinturão das Águas na sede do município.
É gratificante rememorar os invernos promissores com banhos e pescaria abundantes no sangradouro do Açude Juarez de Queiroz. Água e peixes desciam pelo sangradouro formando o Córrego do Rêgo caminho para o Açude do Rêgo (Açude da COHAB). Essas águas caudalosas, seguindo caminhos tortuosos, encontrava-se com o Córrego da Bica e desaguavam juntos no Alagamar.
Bom era pescar muçum e camarão no Córrego do Alferes Argemiro que unido ao lago do mesmo nome (Escola Júlia de Melo) fazia nascer o Córrego do Gongá, este por sua vez, serpenteando por terras do Jurandir Bessa (Cascaju) chegava ao Mal Cozinhado e Alagamar. Na mesma região do Córrego do Alferes Argemiro formava-se outro córrego seguindo sentido centro, denominado Córrego do Rio Novo. Ele passava próximo do Matadouro (Prefeitura), penetrava em terras do Bernardo Simões e do José Martins Franco indo até o Açude do Rêgo.
Hoje, 30 de dezembro de 2021, escrevo estas linhas, não por nostalgia, escrevo com sentimento de revolta, angustia e dor, pois acordei com forte odor de queimado. Incomodado, pude constatar que o odor de queimada era proveniente da região do Coaçú e Alagamar. Não é de hoje que esses fatos tenebrosos vêm ocorrendo, o Alagamar, berçário da vida marinha, vem sistematicamente sendo degradado pela ganância da especulação imobiliária. Construções irregulares surgem em suas margens, queimadas faz parte da rotina, sem contar que, de uns tempos para cá, uma grande área está sendo desmatada, só se ver máquinas e caçambas em constante movimentação. Contatei um morador da área que confirmou a retirada de minerais (areia e barro) para fins comerciais e a construção de um açude. Uma tragédia!
Não podemos mais dizer “Quem bebe da água de Cascavel sempre volta”. Que água? O Cinturão das Águas está desaparecendo.
A Serra da Mataquri está sendo vilipendiada com a retirada de madeira e pedra, as nascentes desapareceram, em seu lugar criaram um lixão que contamina nossas águas subterrâneas e o Rio Mal Cozinhado. O caminho das águas para o Açude do Juarez transformou-se em ruas pavimentadas que no inverno transformam-se em rios caudalosos e destrutivos. Os lagos e lagoas do Alto Luminoso estão sendo soterradas pela especulação imobiliária. O Córrego do Alferes Argemiro deu lugar à Escola Júlia de Melo (verdadeiro alagadiço no inverno). Do Júlia de Melo ao asfalto pera a Caponga, o Córrego do Gongá recebeu tubulação com aterro e no trecho da Cascaju recebe esgoto industrial .
O Córrego do Rio Novo, com galerias e aterro, produz alagamentos por detrás da prefeitura e na esquina da Sasha Rações. O Córrego do Rêgo, entre Rua Coronel Biá e estrada da Barra Nova, está sendo assassinado por construções, aterros e lixo. Nossas matas e áreas verdes públicas estão sendo destruídas para darem lugar a projetos imobiliários obscuros. Os manguezais da Barra Nova, Caponga e Balbino estão sendo destruídos e aterrados para dar lugar às residências. O Riacho da Caponga está em processo de aterro. A Sede do município está totalmente impermeabilizada, impedindo as águas da chuva de infiltrarem-se no subsolo.
Os rios Mal Cozinhado e Choró sofrem com a erosão de suas margens, causadas pela destruição de suas matas ciliares. A destruição de nossas matas, por queimadas ou desmatamentos, para projetos imobiliários constitui um problema sério, pois a vegetação possui a função de preservar as nascentes e fornecer umidade para a atmosfera, originando chuva. Com a diminuição da cobertura vegetal, a água vai faltar. O resultado disso já pode ser sentido na pele e o momento apresenta urgência na mobilização dos Cascavelenses para o caminho da conscientização.
O que deixaremos de herança para nossos filhos se o resultado disso já pode ser sentido na pele?
As ações para a proteção e preservação do meio ambiente, de Cascavel, são de fundamental importância para garantir uma melhor qualidade de vida. A falta de informação, conscientização e, principalmente, a falta de educação ambiental e fiscalização feita pela Prefeitura, Câmara e Judiciário são fatores da degradação do meio ambiente de nosso município. É necessário haver uma articulação de todos, Poder Público e Sociedade, para o aprimoramento de uma Educação Ambiental no sentido de apresentar a possibilidade de motivar e sensibilizar nossa população na defesa da qualidade de vida.
Os desafios das famílias da Caponga, Barra Nova, Balbino e Águas Belas com a preservação dos mangues e rios giram em torno de práticas de uma Educação Ambiental que levam à aprendizagem de como viver juntos com os mangues e os rios sem destruí-los, promovendo uma interação consciente da comunidade e do meio ambiente.
Na escola, a Educação Ambiental é uma atividade meio que não pode ser percebida como mero desenvolvimento de brincadeiras. Ela deve ser trabalhada no sentido de valores, como respeito à diversidade e sensibilização, como também, nas mudanças de atitudes com relação ao meio. Já os professores, não devem ficar presos apenas aos livros, à teoria, mas que passem a contextualizar a realidade de nosso município. Podendo explorar presencialmente nossa região, valorizando a cultura, a história e estudando as eventuais degradações ambientais em Cascavel.
Neste sentido, a Educação Ambiental na escola possibilitará a formação ética de agentes transformadores capazes de pensar e agir criticamente. Ela proporcionará o aumento do conhecimento e transformará a escola em espaço de construção de cidadãos críticos, capazes de realizar análise crítico-humanizadora das relações homem e natureza.
Que 2022 seja o ano da redenção ambiental, sem pandemias, com muitos empregos e sem fome, com nossos mananciais, serra da Mataquiri, praias, vegetações, dunas e mangues protegidos. Que Cascavel volte a ser o paraíso da água boa, pois preservar nosso ecossistema é o caminho do equilíbrio social, econômico, cultural e ambiental. O povo será Feliz e Cascavel agradecerá.
UM FELIZ 2022!
Cascavel é Grande.







