quinta-feira, 4 de junho de 2026

 Bola Preta, símbolo do Carnaval Carioca, homenageia a boneca Kamélia, símbolo do Carnaval de Manaus

Bloco Bola Preta homenageia boneca Kamélia - Imagem: Reprodução
Bloco Bola Preta homenageia boneca Kamélia - Imagem: Reprodução

Por Ricardo Oliveira Ruiz*, especial para o Ceará Leste

Pretendo, com este artigo, homenagear a boneca Kamélia, símbolo do Carnaval de Manaus/AM, quando de sua passagem pela capital do Rio de Janeiro como atração da tradicional feijoada do Cordão da Bola Preta, símbolo do Carnaval Carioca. O evento celebra a abertura do Carnaval Carioca 2025 com a entrega de Faixas 2025 para as Musas do Bola Preta.

Ovacionada ao adentrar reluzente na sede dessa centenária agremiação carnavalesca, no sábado (7/12), na Lapa, ao som da marchinha carnavalesca “A Jardineira”, de Humberto Porto (1908-1943) e Benedito Lacerda (1903–1958), tocada pelo Grupo Exaltação ao Samba Enredo, a boneca Kamélia despertou um gostoso sentimento de reminiscência aos manauaras presentes ao evento, e de admiração aos cariocas.  

Considerada como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Amazonas (Lei Estadual Nº 4.276, de 23 de dezembro de 2015), a boneca Kamélia nasceu pelas mãos de Cândido Jeremias Cumaru, mais conhecido como Kandu, na ceia de Natal comemorada em dezembro de 1938.

Consta que Kandu adquiriu, por 4 mil réis, uma boneca de cor negra e trajes de baiana, media 75 centímetros de altura. Há duas versões sobre a compra dessa boneca: uma de que a compra se deu nas lojas 4-400 (Lobrás), no centro de Manaus; outra, de que a boneca foi comprada na Bahia.

O nome Kamélia foi para homenagear a “Camélia” (Camellia L.) da marchinha carnavalesca “A Jardineira”, imortalizada na voz do cantor Orlando Silva (1915–1978).

O manauara Kandu era dirigente do Olympico Club, entidade fundada em 17 de outubro de 1938, no porão de uma casa localizada na Rua José Clemente, ao lado do famoso Bar Caldeira, no centro da cidade.

Apresentada no tradicional Bar Avenida (Avenida Eduardo Ribeiro com a Rua Saldanha Marinho, no centro de Manaus), no início de 1939, Kandu e alguns amigos fundaram o Bloco da Kamélia pra brincar o carnaval desse ano. Em 31 de dezembro de 1939, a capital do Amazonas tinha 93.748 habitantes (Anuário Estatístico do Brasil).

Nesse tríduo momesco de 1939, o Bloco da Kamélia, com Kandu e outros foliões manauaras, desfilou pelas avenidas e ruas de Manaus no auto-ônibus “Popay” com a boneca Kamélia pendurada num galho de um Ingazeiro.

Em 1940, ocorreu o primeiro baile carnavalesco com a boneca Kamélia, numa casa alugada na Praça da Saudade, no centro de Manaus. Em meados dessa década de 1940, o Bloco da Kamélia passou a sair da casa do artista plástico Branco e Silva (1889-1959), na Praça Osvaldo Cruz (Praça da Matriz), no centro da cidade.

No Carnaval de 1946, o Bloco da Kamélia saiu da Rua Coronel Salgado, nº 39, no bairro Aparecida, em cortejo com destino ao Olympico Club, quando, às 22h, o clube realizou o seu tradicional baile carnavalesco (Jornal do Comercio/AM, 9/2/1946). A partir do carnaval de 1947, o Olympico Club passou a promover a “Festa da Kamélia”.

Na chegada a Manaus em 1948, de braços abertos e ao som de samba, maxixe, conga e rumba, a boneca Kamélia desfilou pelas avenidas e ruas nos bondes da cidade (Jornal do Comercio/AM, 17/1/1948).

Ainda na década de 1940, a Kamélia transformou-se numa boneca de mais de 2 metros e 20 centímetros de altura, pesando 35 quilos (Jornal do Brasil, 24/2/1974), usando brincos que simbolizavam os cinco aros do brasão do Olympico Club.

Em 1955, por iniciativa do Prefeito de Manaus, Walter Scott da Silva Rayol (1905–1970), a boneca Kamélia recebeu as Chaves da Cidade, abrindo os festejos carnavalescos dos manauaras.

A partir de 1958, na gestão do Prefeito Gilberto Mestrinho de Medeiros Raposo (1928–2009), a abertura oficial do Carnaval manauara passou a ser com a chegada da boneca Kamélia, quando a “Rainha Negra do Carnaval de Manaus” é saudada por autoridades da cidade, pelo “Rei Momo 1º e Único e sua Corte Carnavalesca” e por brincantes.

Quanto à chegada da boneca Kamélia, sempre acompanhada de fogos de artifício, música e muita animação, ora ocorre no Porto de Manaus, ora no Aeroporto Eduardo Gomes, no bairro Tarumã (durante muitos anos ocorreu no Aeroporto de Ponta Pelada, no bairro Crespo). O séquito, com a boneca Kamélia em carro aberto, segue pelas avenidas e ruas da cidade até a sede do Olympico Club.

Em 1993, a diretoria do Olympico Club cria a Fundação Kamélia (serviria como Museu do Carnaval de Rua de Manaus) e a Banda da Kamélia (Jornal do Comércio, 16 e 18/12/1993). Em 7 de dezembro de 2003, nasce o Grêmio Recreativa Escola de Samba Império da Kamélia.

Com a Lei Municipal Nº 1.722, de 15 de abril de 2013, a “Chegada da Kamélia” passou a ser a abertura oficial do carnaval de Manaus.  

O Amazonas se fez presente na festa do Cordão da Bola Preta, comandada pelo Presidente Pedro Ernesto, com Almério Botelho Filho (Presidente do Olympico Club), Didi Redman (Presidente de Honra da Escola de Samba Império da Kamélia), Bosco Fonseca (estilista da boneca); Arivaldo Canizo Filho (tripa oficial da boneca); coronel Fabiano Bó (Chefe da Casa Militar do Governo do Amazonas) e sua esposa Miriam Bó; e a jornalista Nívia Rodrigues.

No Rio de Janeiro, a boneca Kamélia ainda foi apresentada na quadra da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, e depois, ainda produziu um clipe no calçadão da praia de Copacabana para marcar sua presença na Cidade Maravilhosa.

Com minha esposa Cláudia Braz, prestigiei esse memorável evento promovido pela Bola Preta. A presença da boneca Kamélia me fez lembrar, saudoso, da minha infância/adolescência quando morador no centro de Manaus, nas décadas de 1960/70.

Nessas décadas, a festa do Rei Momo ocorria nos clubes sociais da cidade. O Baile “Despedida da Kamélia” terminava ao alvorecer das terças-feiras gordas de carnaval, na Praça Heliodoro Balbi/Praça da Polícia Militar. O encerramento do baile ocorria com a marchinha carnavalesca “Cidade Maravilhosa” (Hino da Cidade do Rio de Janeiro), de Antônio André de Sá Filho (1906-1974).  

A chegada da boneca Kamélia nessa praça era denunciada pelos fogos de artifício. E lá estávamos minha mãe Maria da Conceição e eu prestigiando o cortejo carnavalesco do Olympico Club com a Kamélia. Brinquei em muitas festas carnavalescas infantis/adultas com a presença da octogenária boneca Kamélia.

Honra-me muito ter conhecido o mestre Kandu quando ele foi morador na esquina da Rua Visconde de Porto Alegre com Avenida 7 de Setembro, no centro de Manaus.  

Viva a boneca Kamélia, Símbolo do Carnaval de Manaus. Viva o Cordão da Bola Preta, Símbolo do Carnaval Carioca! Viva o Carnaval!

*Ricardo Oliveira Ruiz, filho da floresta, nascido em Manaus/AM, é professor aposentado do Instituto Federal do Ceará e colaborador do Ceará Leste. z

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