quinta-feira, 4 de junho de 2026

Fazendas de Carbono no Sertão

Fazenda de carbono em Maracaçumé (MA). Foto Bilipe Bispo/Estadão/Brasilagro
Fazenda de carbono em Maracaçumé (MA). Foto Bilipe Bispo/Estadão/Brasilagro

Por Nizomar Falcão Bezerra

O estado do Ceará faz reflorestamento há mais de cinqüenta anos; todavia, a área em processo de desertificação só tem aumentado. Uma das maiores contradições no nosso Recaatingamento, está no fato de que o benefício para o empreendedor encontra-se, quase sempre, na destruição da floresta, seja para produção de estacas ou carvão vegetal, entre outros.

É necessário mudar o paradigma do recobrimento vegetal: obter lucro com a floresta em pé, utilizando plantas adequadas ao clima do Semiárido, seja para produção de frutos (Gênero Spondias) ou de produção de carbono ou combinando os dois. Principio fundamental: a caatinga é o bioma mais eficiente na captura de carbono. De cada 100 toneladas de CO² apreendidas pela vegetação caducifólia do semiárido cearense, ocorre um sequestro que varia entre 45% e 60%, enquanto que, na floresta amazônica, varia de 2% a 11% e no Cerrado 23%. Esta capacidade excepcional não pode ser perdida, pois significa benefício para os agricultores e para toda a sociedade. A floresta da Caatinga aprisiona 3.350 toneladas de carbono por quilômetro quadrado, que são liberados quando se dá o desflorestamento.

A caatinga é hoje o terceiro bioma no qual mais ocorre desmatamento, em números absolutos. Transformar os estabelecimentos rurais do semiárido cearense em “fazendas de carbono” é adicionar um crédito social, na medida em que unidades de conservação e recuperação de áreas degradadas podem ser consideradas soluções espetaculares para conservar o estoque de carbono. Considerando que a pecuária leiteira é a atividade que mais cresce no Ceará, consorciar com a produção de carbono é uma alternativa excepcional para manter as árvores em pé, porquanto propicia, sombra para o gado, terra mais fértil e renda para os beneficiários. Existe uma demanda mundial reprimida por carbono, de modo que os mais otimistas dizem que essas florestas valerão mais que a própria propriedade. O mundo vai investir, progressivamente, em sustentabilidade por necessidade de qualidade de vida.

A criação de fazendas de carbono, no sertão, é mais um recurso do arsenal de resistência da região que o sertanejo pode utilizar a seu favor. É o refinamento do raleamento da caatinga, rebatizada como sistema integração floresta-pecuária. As diversas políticas comunitárias institucionalizadas nos séculos XX e, também no XXI, não conseguiram reverter o quadro histórico de miséria social da região, notadamente, com as mudanças climáticas; logo, é preciso investir em projetos que consolide o “complexo econômico sertanejo”, complementando as soluções analisadas por Guimarães Duque, na década de 1940, diferentemente do que acreditava Celso Furtado, que defendia uma pecuária que considerasse a especificidade ecológica da região. Para ele, aumentar a resiliência do agricultor do sertão é incorporar produtos que atendam demandas do mercado econômico.

Nizomar Falcão Bezerra é Engº Agrº Ph.D. - Ematerce
Nizomar Falcão Bezerra é Engº Agrº Ph.D. – Ematerce

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