Por Ricardo Oliveira Ruiz*, especial para o Ceará Leste
A manifestação do mela-mela esteve presente no carnaval deste ano em municípios da Costa Leste cearense, como ocorreu em anos anteriores, e como ocorre em inúmeras cidades brasileiras, com destaque para o norte e o nordeste.
Obviamente que, além do mela-mela, a festa do Momo nessas cidades teve a apresentação de artistas e bandas e/ou desfile de escolas de samba, maracatus e de blocos, cordões e bandas carnavalescas.
O mela-mela consiste na manifestação de foliões que, quando estão dançando as músicas de carnaval, jogam maisena, farinha de trigo, goma, polvilho, talco e produtos similares uns sobre os outros.
Essa manifestação do mela-mela tem ascendência no Entrudo (latim “introitos”: entrada, começo), que ocorria no carnaval europeu da Idade Média. Essa entrada, começo, diz respeito ao início da Quaresma pela Igreja.
Dessa forma, o Entrudo foi trazido para o Brasil na bagagem dos imigrantes portugueses (de Açores, Cabo Verde e da Ilha da Madeira) que desembarcam no Rio de Janeiro, em 1641.
Em 1723, ocorreram os primeiros Entrudos no Brasil, que consistia na manifestação de famílias patriarcais brancas que, dançando e cantando com a cara pintada com pó de arroz, jogavam líquidos (muitos imundos), pós de todos os tipos e limões de cheiro (bola de cera com perfume dentro que se rompia ao atingir uma pessoa) uns nos outrosmesmos.
No Brasil Colônia e Império, o Entrudo passou a ser, também, prática festiva dos escravizados que, com o rosto pintado, jogavam produtos (ovos, farinha de trigo etc.) e limões de cheiro uns sobre os outros, além de assoprarem por um canudo feijão e milho.
As famílias brancas brincavam em casa (os escravizados eram alvo dessas brincadeiras); os escravizados na rua. Muitos consideravam uma manifestação de rua violenta.
Conquanto o Entrudo fosse uma festa popular, os escravizados (que trabalhavam na limpeza da sujeira e na produção do limão de cera) brincavam distante de seus senhores e não podiam melar os brancos e livres.
Em 1840, a elite carioca fez gestões para acabar com Entrado através da campanha “jogo bárbaro, pernicioso e imoral”. Em 1854, ocorreu àproibição do Entrudo no Brasil. Órgãos da imprensa desqualificavam o Entrudo e defendiam o carnaval tipo francês.
A partir de então, o carnaval passou para os salões de clubes e teatros com os bailes de máscaras (estilo de bailes da Itália e França) ao som de polcas e para os desfiles de rua com alegorias. Jogavam-se confetes e serpentinas.
Surgiu o sucessor dos limões de cheiro, o lança-perfume, introduzido em 1885, mas proibido em 1961. As marchinhas carnavalescas comandavam a festa a partir do século XIX.
O Entrudo é retratado em obras do poeta e advogado baiano Gregório de Matos Guerra (23/12/1636 – 26/11/1696), do poeta e jurista português Tomás Antônio Gonzaga (11/08/1744 – 1810) e do pintor e desenhista francês Jean-Baptiste Debret (18/04/1768 – 28/06/1848).
Para o carnaval deste ano, municípios do Litoral Leste cearense instituíram normas regulamentares sobre locais e/ou horários pré-determinados pela Prefeitura para a manifestação do mela-mela, consoante o site e redes sociais do Poder Executivo Municipal.
Em Pindoretama, com o Decreto Municipal Nº 320/2023, os horários do mela-mela ficaram assim: sexta-feira, das 20h à 0h; e de sábado a terça-feira, das 15h às 22h. A Lei Municipal Nº 35/1991, que dispõe sobre o Código de Postura da cidade, proíbe atirar água ou outra substância nos transeuntes durante o carnaval.
No Cascavel, o mela-mela ficou restrito a Praça da Sardinha, na Caponga, com o horário de 16h às20h.
Beberibe, com o Decreto Municipal Nº 09.02.01/2023, o mela-mela ocorreu de 16h às 20h, na Marina do Morro Branco e em uma rua dos distritos de Sucatinga, Paripueira e Parajuru.
Em Fortim, a Lei Municipal Nº 620/2017, proíbe a utilização de goma, maisena, farinha de trigo e similares no mela-mela. A justificativa da lei fala em evitar o desperdício de alimento, a violência e sujeira na cidade e de doenças respiratórias e infecções oculares.
Não consta nada no site e redes sociais da Prefeitura do Eusébio, Aquiraz, Aracati e Icapuí sobre informações e normas regulamentares quanto à manifestação do mela-mela.
*Ricardo Oliveira Ruiz é professor aposentado do Instituto Federal do Ceará e colaborador do Ceará Leste.







