domingo, 19 de julho de 2026

Tacacazeiras da Região Norte a caminho do reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil

Tacacazeira e pessoas saboreando a iguaria - Foto: Portal Taquiprati/José Ribamar Bessa Freire
Tacacazeira e pessoas saboreando a iguaria - Foto: Portal Taquiprati/José Ribamar Bessa Freire
Por Ricardo Oliveira Ruiz*, especial para o Ceará Leste

Tomei a primeira cuia de tacacá quando criança morador do sobrado localizado na esquina das Avenidas Getúlio Vargas com 7 de setembro (onde nasci, em agosto de 1957), no centro de Manaus, Amazonas. A banca da tacacazeira Hilda Bentes Lima ficava na Avenida Getúlio Vargas, um pouco depois da Rua Henrique Martins.
 
Na memória, guarda reminiscências de que, além da tacacazeira dona Hilda, existia nos anos 1960 e 1970, no centro de Manaus, bancas de tacacá nas Praças da Polícia Militar, da Matriz e São Sebastião; na Rua Ramos Ferreira, esquina com a Rua Tapajós, em frente à Academia Amazonense de Letras; ao lado do Cine Odeon e em frente ao Cine Guarany.
 
Nos dicionários, o tacacá é conceituado como um caldo grosso e picante: Aulete (s.d.); um mingau quase líquido: Aurélio (s.d.);e um caldo: Houaiss (s.d.) e Online de Português. A palavra tacacá deriva do nheengatu ou língua geral.
 
Com gênese indígena, o tacacá, uma possível variação do caldo indígena chamado manipoi (Câmara Cascudo 1), era acompanhado, inicialmente, de caça, peixe e até saúva quando ganhou novos ingredientes a partir da segunda metade do século XX. Há registro da receita do tacacá no século XVI pelo padre Abbeville (Câmara Cascudo, 2004: 135).
 
Considerado como patrimônio cultural do povo nortista (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima), o tacacá, consumido em bancas nas ruas e restaurantes de diversas cidades da região, integra a economia popular e é, sobretudo, fonte de renda para famílias de tacacazeiras, sendo indispensável nos eventos realizados na capital e interior desses estados.
 
O tacacá é servido quente, geralmente ao entardecer, em cuias artesanaiscom suporte de uma cestinha de palha ou uma pequena tigela, sendo composto por subprodutos da mandioca brava como o tucupi e a goma, camarão seco e salgado, jambu,diversos temperos e pimenta murupi (Capsicumchinense) em forma de molho a gosto. Tem tacacá com o açúcar adicionado ao tucupi.

A cuia, geralmente desenhada ou pintada, é fruto da cuieira (Crescentiacujete);o tucupi, caldo amarelado alaranjado, é extraído da raiz da mandioca brava (Manihotesculenta) após processos de fermentação e fervura para eliminar o ácido cianídrico que ele contém; a goma, é o amido da mandioca; e o jambu, responsável pela sensação de anestesia na boca por conta do espilantol, é uma erva (Spilanthesoleracea).
 
Importa consignar que, o “Tacacá”, na forma da lei, é considerado como Patrimônio Cultural Imaterial nos Estados do Acre e do Pará e no município de Porto Velho (RO), e as “Tacacazeiras”, como Patrimônio Imaterial nesses dois Estados e no município de Belém (PA).Em Belém (PA), comemora-se o Dia Municipal da Tacacazeiraem 13 de setembro.
 
Diante da relevância das tacacazeiras na Região Norte, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) abriu consulta pública, até 19/11/2025, para reconhecer o ofício de Tacacazeirascomo Patrimônio Imaterial do país, conforme proposta do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan).
 
Sobre a consulta pública, o Iphan deliberará sobre o Parecer Técniconº 17/2025/DIVTEC-IPHAN-AC, de 3/10/2025,elaborado pela antropóloga Sarah Victória Almeida Rodrigues, do Iphan-AC, com o pedido de reconhecimento do “Ofício de Tacacazeiras na Região Norte” como Patrimônio Cultura do Brasil.
 
O parecer destaca que as Tacacazeiras devem contar com o apoio de órgãos públicos (Embrapa, Emater, universidades, institutos federais, secretarias municipais e Banco da Amazônia) e privados (Sebrae, Sesce Senai).
 
Na Câmara dos Deputados, tramita o Projeto de Lei Nº 1948/2024, de autoria do deputado federal José Priante (MDB/PA), dispondo sobre o Tacacá ser declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
 
Em 2016, a cantora Joelma lançou a música “Voando pro Pará”. Consta que, em 2023, o tacacá foi a comida mais pesquisada na plataforma Google por conta de trecho dessa música “Eu vou tomar um tacacá, dançar, curtir, ficar de boa”.
 
Registre-se que, na capital do Rio de Janeiro, o tacacá também pode ser consumido no Tacacá do Norte (Flamengo); Barraca do Pará (Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas); Pescados na Brasa (Riachuelo), Cantinho do Pará (Barra da Tijuca); Manicumã (Botafogo); e Belém Gastronomia, Empório Grão-Pará e Arataca (Copacabana).
 
Por fim, é relevante anotar que endereçamos mensagem eletrônica a um vereador de Manaus sugerindo a formulação de proposituras no sentido de ser instituído o “Dia das Tacacazeiras de Manaus” e que as “Tacacazeiras de Manaus” possam ser reconhecidas como Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial da Cidade.
 
O Parecer Técnico Nº 17/2025/DIVTEC IPHAN-AC está disponível em: <file:///C:/Users/Ricardo/Downloads/SEI_6637393_Parecer_Tecnico_17.pdf>.
 
 
*Ricardo Oliveira Ruiz, filho da floresta nascido em Manaus/AM e radicado na capital do Rio de Janeiro, é professor aposentado do Instituto Federal do Ceará e colaborador do Ceará Leste.
 

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