(*) José Nelson Bessa Maia
O complexo de vira-lata no Brasil é um conceito criado pelo dramaturgo e escritor brasileiro Nelson Rodrigues (1912-1980), o qual originalmente se referia ao trauma sofrido pelos brasileiros em 1950, quando a Seleção Brasileira foi derrotada pela seleção uruguaia de futebol na final da Copa do Mundo em pleno Maracanã. No entanto, hoje a sensação de inferioridade de muitos brasileiros em face do resto do mundo extrapolou todos os limites. Muitos agem como um “narciso às avessas”, que cospe na própria imagem e despreza os logros do próprio país em seus 200 anos de independência como estado-nação.
Lá fora, porém, a percepção sobre o Brasil é bem diferente. No contexto atual o Brasil é visto como parceiro relevante, um mercado promissor e uma potência regional estável. Todavia, o país pode, sim, gerar desconforto, rivalidade ou desconfiança.
Esse “incômodo” decorre do tamanho e do potencial de um país no sistema internacional. Eis a seguir algumas dimensões pelas quais o Brasil pode ser percebido como um ator que “incomoda” outros países.
Somos um dos maiores países em território, população e PIB, ocupando uma posição de destaque em qualquer métrica de escala. Essa dimensão, por si só, já o coloca em patamar distinto. Países grandes tendem a ser observados com mais atenção e cautela.
Ademais, o Brasil possui imensas reservas de recursos naturais. A Amazônia, por exemplo, não é apenas um ativo nacional: é vista lá fora como patrimônio global devido ao seu papel no clima e na biodiversidade.
Em segundo lugar, o Brasil “incomoda” pelo seu agronegócio, uma vez que somos um dos maiores exportadores de soja, carne bovina, milho, açúcar, suco de laranja e café. Essa posição desafia a de outras regiões.
Blocos como a União Europeia (UE), por exemplo, impõem barreiras fitossanitárias e ambientais ao Brasil. Embora tais medidas sejam alegadas como justificadas, há claro protecionismo. O acordo entre Mercosul e UE, postergado por décadas, ilustra bem esse problema.
Outro aspecto que chama atenção é a posição de potência emergente ao lado de países como China, Índia e Rússia. O Brasil integra fóruns como o BRICS, que busca reformar a governança global e reduzir a predominância de potências tradicionais.
Essa atuação gera desconforto quando o Brasil defende mudanças no Conselho de Segurança da ONU ou no sistema financeiro internacional. Ao pleitear maior influência, o país desafia o status quo. Além disso, o Brasil quase sempre tem uma política externa autônoma, evitando alinhamentos automáticos. Essa postura é vista como ambígua ou imprevisível por parceiros tradicionais.
O quarto aspecto é a questão ambiental onde a Amazônia é, novamente, foco de debate. As políticas ambientais brasileiras têm repercussão. Surge, então, o dilema soberania nacional versus responsabilidade global.
Ademais, o Brasil possui potencial em energias renováveis, como hidrelétrica, eólica, solar e biomassa, além de reservas de minerais estratégicos, como as chamadas “terras raras”. Isso o coloca em posição de realce, mas também aumenta a cobiça externa.
O Brasil também exerce influência cultural significativa. Elementos como música, futebol, carnaval e estilo de vida alegre e descontraído contribuem para uma imagem internacional marcante. Embora isso não “incomode” no sentido tradicional, pode gerar uma forma de competição simbólica.
Países também disputam prestígio cultural e influência global — o chamado “soft power”. A presença cultural brasileira, especialmente em regiões como América Latina e África lusófona, reforça sua posição como referência regional, o que pode ser visto com cautela por outros países que buscam exercer liderança nessas áreas.
Por fim, cabe destacar que “incomodar” outros países é um sinal de que o país tem peso e capacidade de afetar o mundo. Países irrelevantes não incomodam. Trata-se o Brasil de um país que, mesmo com desafios internos, possui influência global.
Se bem conduzido, o “incômodo” pode se tornar um ativo, um sinal de que estamos ocupando o espaço que nos cabe no mundo. Portanto, não se justifica de modo algum a persistência do “vira-latismo” nacional que precisa ser combatido de todas as formas e substituído pelo respeito e apreço ao país.
(*) José Nelson Bessa Maia, ex-secretário de Relações Internacionais do Governo do Ceará, é mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente, é consultor internacional.








