‘Igreja Católica não faz barganha’, afirma CNBB

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O presidente Jair Bolsonaro se reúne com deputados religiosos e líderes de TV católicas para discutir verba de publicidade Crédito: Reprodução/Youtube Presidência da República

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) repudiou em nota, no sábado, 6  de junho, pedidos de verba feitos ao governo federal por uma ala da Igreja Católica que, em troca, veicularia notícias favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro em canais de rádio e TV, conforme revelou reportagem publicada no sábado, 6 de junho, pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Por meio de nota, a CNBB demonstrou indignação com a atitude de representantes desses canais, afirmou que eles não falam pela instituição e que a Igreja não atua em troca de favores.

“Recebemos com estranheza e indignação a notícia sobre a oferta de apoio ao governo por parte de emissoras de TV em troca de verbas e solução de problemas afeitos à comunicação. A Igreja Católica não faz barganhas”, informou a CNBB. “Não aprovamos iniciativas como essa, que dificultam a unidade necessária à Igreja, no cumprimento de sua missão evangelizadora, ‘que é tornar o Reino de Deus presente no mundo'”, diz a nota, em citação a discurso do papa Francisco.

A nota também é assinada pela Associação Católica Internacional Signis Brasil e a Rede Católica de Rádio (CRC). Como mostrou no sábado a reportagem, padres e leigos conservadores, ligados a uma ala que diverge da CNBB e que controla parte do sistema de emissoras católicas, prometeram “mídia positiva” para ações do governo na pandemia do novo coronavírus. Em contrapartida, pediram anúncios estatais e outorgas para expandir sua rede de comunicação.

A proposta foi feita no dia 21 de junho, em reunião pública, por videoconferência e transmitida nas redes sociais, com a participação de Bolsonaro, sacerdotes, parlamentares e representantes de alguns dos maiores grupos católicos de comunicação.

Segundo a CNBB, emissoras intituladas “de inspiração católica” possuem naturezas diferentes, podem ser geridas por associações e organizações religiosas ou por particulares, seguindo seus próprios estatutos e princípios editoriais. “Contudo, nenhuma delas e nenhum de seus membros representa a Igreja Católica, nem fala em seu nome e nem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil”, informou a instituição.

Ainda de acordo com a nota, “é urgente que nestes tempos difíceis em que vivemos, agravados seriamente pela pandemia do novo coronavírus, que já retirou a vida de dezenas de milhares de pessoas e ainda tirará muito mais, que trabalhemos verdadeiramente em comunhão, sempre abertos ao diálogo”.

O padre e cantor do Paraná, Reginaldo Manzotti, da Associação Evangelizar é Preciso, com rádios e TV próprias, cobrou agilidade e ampliação das outorgas e destacou o contraponto que os católicos podem fazer para frear o atual desgaste na imagem de Bolsonaro e do governo. “Nós somos uma potência, queremos estar nos lares e ajudar a construir esse Brasil. E, mais do que nunca, o senhor sabe o peso que isso tem, quando se tem uma mídia negativa. E nós queremos estar juntos”, disse Manzotti, dirigindo-se ao presidente da República.

Emissoras de TV ligadas a grupos religiosos receberam, no ano passado, R$ 4,6 milhões em pagamentos da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) por veiculação de comerciais institucionais e de utilidade pública. Os veículos católicos ficaram com R$ 2,1 milhões e os protestantes, com R$ 2,2 milhões. Em 2020, emissoras de TV católicas receberam, até agora, R$ 160 mil, enquanto as evangélicas, R$ 179 mil, de acordo com planilhas da Secom.

Também por meio de nota, a Frente Parlamentar Católica informou que, na reunião, “não se condicionou verbas de publicidade a apoio ao governo, nem mesmo apoio político pelos membros da Frente”.

No encontro do dia 21 de junho, o padre Welinton Silva, da TV Pai Eterno, ligada ao Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade (GO), disse que a emissora passa por dificuldades e espera uma aproximação com a Secom para oferecer uma “pauta positiva das ações do governo” na pandemia da covid-19.

“Dentro dessa dificuldade, estamos precisando mesmo de um apoio maior por parte do governo para que possamos continuar comunicando a boa notícia, levando ao conhecimento da população católica, ampla maioria desse país, aquilo de bom que o governo pode estar realizando e fazendo pelo nosso povo”, disse o padre.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.