segunda-feira, 13 de julho de 2026

A ditadura dos militares, a escravidão no Ceará e a (ironia das ironias!) família Brasil

As leis atuais, objetivas e equilibradas, não permitem a escravização- Fotos: Divulgação.
As leis atuais, objetivas e equilibradas, não permitem a escravização- Fotos: Divulgação.

 

Por Roberto Maciel

 

Há quem, com compaixão legítima, porém irrefletida, ache que a família moradora do luxuoso condomínio Terras Alphaville 2, no Eusébio, que mantinha uma mulher em condição de escrava, é também vítima de um sistema cruel.

“Eles vêm de uma realidade que aceitava isso”, chega-se a ouvir. Nana-nina-nana, isso não é justificativa. Cruel e desonesto não é o sistema, mas quem não respeita regras e quem, hoje em dia, não paga salários nem assegura vida digna a trabalhadores – ou faz como se fazia no tempo dos imperadores.

As leis atuais, objetivas e equilibradas, não permitem a escravização. E estamos no século XXI, não mais no desigual e opressivo meio da exceção imposto ao País seis décadas atrás.

A família Brasil (o sobrenome é uma ironia estupenda) precisa ser responsabilizada e apenada pelo delito, sem o que o Estado Democrático de Direito ficaria desmoralizado. Trata-se de uma necessidade jurídica, civil e política. E humana e moral.

Outra ironia: a menina escravizada na ditadura militar só agora, na “ditadura de toga”, é libertada
Plácido Aderaldo Castelo e César Cals de Oliveira. Em 1971, foram esses os dois políticos que, a serviço dos golpistas de 1964, exerceram com mão de ferro o poder no Ceará.

O coronel César, que depois se tornaria ministro das Minas e Energia e senador-tampão – sem voto e, por isso, sem legitimidade -, havia sucedido Plácido, que ainda emprestaria nome ao estádio de futebol no bairro Mata-Galinha. Foi naquele 1971 que a menina de 7 anos de idade, agora uma mulher de 62 anos, se tornou mão-de-obra explorada por uma família de classe média.

Era, como há quem acredite, uma situação comum: crianças tornadas escravas. Negaram-se a ela estudo – é analfabeta – e outros direitos.

Não só no Ceará, mas em outros estados há casos desse gênero. Todos – repetimos: todos! – refletem o desmando e o autoritarismo da ditadura.

Depois aparece quem defenda e peça a volta daquela falta de vergonha na cara. E quem, num reacionarismo asqueroso e desprezível, chame de “ditadura de toga” a expressão de lei.

 

No tempo dos ditadores

Note: em pleno período de chumbo no País, um advogado e jornalista, ex-prefeito de Fortaleza, e um engenheiro militar graduado e dono de alta patente, comandavam o Ceará.

Plácido Castelo havia sido nomeado por Castelo Branco; César Cals, por Emílio Médici. O nome daquilo era ditadura.

 

O que foram

É óbvio que não se atribui às pessoas de Plácido e César a escravização da menina pela “família Brasil” – isso não seria razoável nem justo.

Eles, assim como o agressivo Emílio Garrastazu Médici, só são citados nesta Coluna por protagonizarem uma história trágica que ainda acorrenta o País ao atraso. Estavam em posições de poder que hoje tem repercussões graves numa população inteira.

 

Esse (não) é o Brasil

 

 

Mesmo já citados à farta em meios de comunicação, é pertinente citar os acusados de escravizar a empregada: Paulo Martins Brasil, Aurora Dalva Bastos de Alencar Brasil, Paulo Martins Brasil Filho, Zaamarah Alencar Brasil Andrade, Tiago Silva Andrade e Nayarah Alencar Brasil Magalhães.

 

Junto à fogueirinha de papel

Tem a caligrafia do deputado Stuart Castro proposta para transformar o 6 de fevereiro em Dia Estadual do Reggae. Bacana, essa.

Pouco a ver com o Ceará, mas retrata pluralidade e juventude: a data se refere ao nascimento do maior nome do gênero musical, o cantor jamaicano Bob Marley.

 

Orgulho e passinho

Na justificativa, Stuart destaca: “O Estado do Ceará já reconheceu (…) o Passinho do Reggae como Patrimônio Cultural, o que reforça a relevância deste movimento no cenário cultural cearense. Além disso, (…) Lei Municipal (…) de Fortaleza instituiu o Dia do Orgulho do Reggae (1º de julho)”.

 

Revitalização

 

A chamada “Ponte Metálica”, que já teve a denominação oficial de “Viaduto Moreira da Rocha” e é conhecida também como “Ponte Velha”, vai passar por recuperação.

A Prefeitura de Fortaleza vai lançar concorrência de quase R$ 40 milhões para revitalizar o equipamento.

 

*Roberto Maciel, jornalista e produtor cultural, realizador do Festival Canoa Blues, que desde 2008 é promovido em Canoa Quebrada, Aracati; desenvolvedor do projeto Belchior Blues (2014). Também produziu o festival Fórum Harmônicas Brasil (Edições presenciais desde 2005) e foi curador do Festival Jazz & Blues de Guaramiranga (edições de 2002, 2003 e 2004).

 

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