Por José Nelson Bessa Maia*
No momento em que a implantação da ferrovia Transnordestina avança cabe uma breve reflexão sobre o papel que o transporte ferroviário exerceu na formação econômica, territorial e social do Ceará desde a segunda metade do século XIX. Embora a malha ferroviária cearense nunca tenha atingido a extensão observada em estados como São Paulo ou Minas Gerais, ela foi um dos principais instrumentos de integração do interior com o litoral. A importância das ferrovias para o desenvolvimento do Ceará pode ser analisada em diferentes dimensões históricas, econômicas e territoriais.
No tocante à integração do território cearense, a implantação das primeiras linhas
férreas, iniciada em 1873 com a construção da Estrada de Ferro de Baturité, trouxe profunda transformação na organização espacial da antiga província do Ceará. Até então, o transporte dependia de tropas de animais, carroças e estradas precárias, tornando lentas e caras as ligações entre o interior e o porto de Fortaleza.
Em relação ao desenvolvimento agrícola, a expansão ferroviária permitiu ampliar a
produção comercial de diversos produtos, como o algodão; o café produzido na Serra de
Baturité; o açúcar; a cera de carnaúba; os couros; o gado e os cereais. Sem a ferrovia, muitos desses produtos dificilmente alcançariam competitividade nos mercados nacional e internacional devido ao elevado e insuperável custo logístico.
A ferrovia integrou regiões anteriormente isoladas; reduziu o custo do transporte;
aproximou produtores rurais dos mercados consumidores e reforçou a posição da cidade de Fortaleza como centro econômico e administrativo do Ceará. Além do mais, a ferrovia levou à criação e/ou consolidação de novas cidades, pois diversos aglomerados urbanos cresceram em torno das estações ferroviárias, dentre elas Baturité; Quixadá; Quixeramobim; Senador Pompeu; Iguatu; Crato e Sobral. Em muitos casos, a estação ferroviária tornou-se o núcleo inicial da expansão urbana, atraindo comércio; hotelaria, armazéns; oficinas e serviços públicos.
A ferrovia também contribuiu para reduzir os efeitos deletérios das fortes estiagens do
semiárido, em especial durante as grandes secas de 1877–1879; 1888–1889; 1915 e 1932. As linhas férreas permitiram o transporte rápido de alimentos; o deslocamento de forças de segurança; a distribuição de ajuda humanitária e a movimentação menos penosa dos chamados retirantes para o litoral. Além disso, milhares de trabalhadores foram empregados na construção e ampliação das ferrovias como política pública de combate aos efeitos do desemprego crônico provocado pelas estiagens.
Com a expansão da malha ferroviária para o sul do Estado e, posteriormente, sua
conexão com outras redes nordestinas, o Ceará passou a integrar-se mais efetivamente ao mercado brasileiro. Isso permitiu redução n isolamento econômico; maior circulação de mercadorias; mais integração comercial com Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte e fortalecimento das cadeias produtivas regionais. Aliada à eletrificação, tornou possível também a industrialização no Estado, uma vez que facilitou tanto a chegada de matérias-primas, quanto o escoamento da produção agroindustrial, em especial das indústrias têxteis; o beneficiamento de algodão; usinas de açúcar; fábricas de óleo vegetal e a indústria alimentícia.
Além das oficinas ferroviárias também terem representado importantes centros de
formação de mão de obra especializada, a ferrovia introduziu no Ceará uma nova cultura de gestão e tecnologia, pois exigiu engenharia moderna; planejamento territorial; sistemas de comunicação telegráfica; manutenção mecânica especializada e administração empresarial.
Tais competências foram irradiadas para outros setores da economia. As linhas ferroviárias aproximaram diferentes regiões econômicas do Estado, favorecendo a circulação de pessoas, mercadorias, informações e investimentos.
Apesar de seus benefícios, a partir das décadas de 1950 e 1960, o governo federal
brasileiro passou a privilegiar o transporte rodoviário. Como consequência, houve redução dos recursos em investimentos e manutenção da malha ferroviária. Diversos ramais ou quase todos foram desativados e diminuiu o transporte de passageiros. Isso provocou o abandono de estações que eram outrora polos de dinamismo. O fechamento gradual da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) marcou o fim de um ciclo histórico iniciado ainda no Império.
No primeiro quartel do século XXI, parece estar ocorrendo o salutar renascimento das
ferrovias no Pais e também no Ceará. Trata-se especificamente da Ferrovia Transnordestina, que conecta o interior do Nordeste ao Complexo Industrial e Portuário do Pecém. Essa nova infraestrutura deverá reduzir significativamente os custos logísticos; ampliar as exportações de minério, grãos e produtos agroindustriais; estimular a instalação de novos empreendimentos industriais no Sertão; integrar o Ceará aos grandes corredores nacionais de transporte e aumentar a competitividade do Estado no comércio internacional.
Vimos, portanto, que, ao longo de mais de 150 anos, as ferrovias foram um dos
principais motores da transformação econômica e territorial do Ceará. Elas romperam o
isolamento do interior, impulsionaram a agricultura de exportação, consolidaram Fortaleza como centro comercial e administrativo, favoreceram o surgimento de novas cidades e desempenharam papel essencial no enfrentamento das secas, ao facilitar o transporte de alimentos, pessoas e insumos.

Embora tenham perdido protagonismo durante a segunda metade do século XX em
razão da predominância do transporte rodoviário de cargas, sua relevância estratégica volta a crescer no contexto contemporâneo. A retomada dos investimentos ferroviários,
especialmente com a Transnordestina e sua integração ao Porto do Pecém, recoloca a ferrovia no centro das políticas de desenvolvimento regional, logística e competitividade.
A combinação da ferrovia com o porto representa uma oportunidade comparável, em
escala moderna, ao impacto que a Estrada de Ferro de Baturité exerceu no final do século XIX.
Só que hoje a ferrovia assume um papel ainda mais estruturante no processo de crescimento do Ceará, uma vez que funciona como alavanca para a redução de custos logísticos, a atração de investimentos industriais nacionais e estrangeiros e a inserção plena do Estado nas cadeias globais de valor.
(*) José Nelson Bessa Maia é Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ex-secretário de assuntos internacionais do Ceará, escritor e consultor internacional.







