*Por José Nelson Bessa Maia
A América Latina assumiu, primeiramente, um papel central na política externa de Donald Trump. Essa importância é, portanto, muito superior à vista em governos americanos anteriores. A decadência econômica dos EUA faz, aliás, com que Washington se volte para o seu próprio hemisfério.
O governo americano denomina, desse modo, a região ocidental como o seu “quintal” estratégico. Essa mudança ocorre, visto que, os EUA enfrentam dificuldades para competir na Ásia e na África.
A velha teoria das esferas de influência volta, por conseguinte, ao centro do tabuleiro geopolítico global. O Império americano retrocede, assim, ao espaço vital definido pela antiga Doutrina Monroe. Os EUA não possuem, ademais, folga fiscal para manter um aparato imperial oneroso mundialmente.
O orçamento militar de quase um trilhão de dólares tornou-se, então, insuportável para o país. É o momento, por sua vez, de retrair a influência e focar na vizinhança.
A Venezuela tornou-se, neste contexto, o campo de teste para essa nova investida estratégica. A intervenção no país foi, de fato, uma operação tecnológica e midiática bem-sucedida. Com a mudança de regime, os EUA pretendem, desse modo, controlar novamente o petróleo venezuelano.
Eles buscam, consequentemente, obter meios para tentar reverter o seu próprio declínio econômico. Essa ação serve, inclusive, para mostrar à China e à Rússia quem manda no hemisfério.
O Brasil condenou, prontamente, a ação dos EUA por ultrapassar uma linha internacional inaceitável. Essa postura segue, portanto, a tradição brasileira de defesa da soberania das nações. O governo brasileiro colocou-se, aliás, à disposição para mediar uma solução diplomática urgente.
A intenção é, desse modo, eliminar o risco de uma guerra perto da fronteira amazônica. No entanto, muitos cidadãos festejam, infelizmente, a interferência externa sem medir as graves consequências.
Ignorar os riscos de delegar poder de intervenção aos EUA é, visto que, um erro perigoso. Atribuir carta branca a Washington abre, por conseguinte, um precedente contra qualquer país da região. Interesses estrangeiros podem, assim, instalar governos títeres para saquear recursos naturais latino-americanos.
A ação na Venezuela representa, então, uma grande ameaça para toda a América Latina. Ela revela, finalmente, a disposição americana de agir agressivamente e ao arredio do Direito Internacional.

*José Nelson Bessa Maia, ex-secretário de Relações Internacionais do Governo do Ceará, é mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente, é consultor internacional.








