Em meio à absurda guerra em curso dos EUA e Israel contra o Irã e seus efeitos caóticos sobre a economia global, o mundo assiste a uma reconfiguração da ordem internacional, gerando uma verdadeira época dos monstros em que, segundo o falecido pensador italiano Antonio Gramsci (1891-1937), “o velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para surgir.”Diante disso duas abordagens civilizacionais diametralmente opostas saltam aos nossos olhos.
De um lado, a potência hegemônica por 80 anos luta belicosamente para manter sua supremacia em um contexto crescentemente multipolar e de claro esgotamento dofinanciamento de sua estrutura imperial pelo planeta afora. Por outro, a China, em sua ascensão pacífica, avança com vigor em termos econômicos, tecnológicos e de bem-estar rumo à posição de maior e mais desenvolvida economia do mundo.
Enquanto as manchetes da mídia estavam centradas na guerra no Oriente Médio e suas implicações sobre os mercados financeiros, o Parlamento da China aprovava no início de março de 2026 o seu 15º plano quinquenal (2026-2030), que traça por meio de planejamento de médio e longo prazo a direção das políticas, objetivos de desenvolvimento e reformas a serem executadas nos próximos cinco anos, revelando uma previsibilidade que contrasta com governos obcecados por ciclos eleitorais curtos e/ou intervenções em assuntos de outros países.
O esboço do 15º Plano Quinquenal estabelece uma série de metas, tendo o “desenvolvimento de alta qualidade” no topo da agenda. Apesar dos desafios estruturais, como o envelhecimento populacional, desequilíbrios setoriais e a transição energética, a China propõe um modelo de desenvolvimento próprio que prioriza o bem-estar social e a autonomia tecnológica, servindo como um farol alternativopara o Sul Global.
Os principais vetores do Plano são a inovaçãotecnológica, a expansão do mercado interno com bem-estar social, a transição para a economia verde e o fortalecimento da segurança nacional. A ênfase do 15º Plano Quinquenal no citado “desenvolvimento de alta qualidade” oferece uma fonte de certeza em meio a uma crescente incerteza global, e ajudará a escrever um novo capítulo na trajetória chinesa de rápido crescimento e estabilidade social de longo prazo.
Em um momento em que alguns países recorrem ao protecionismo, a China abre seu vasto mercado, compartilhando sua prosperidade como fonte de oportunidade e cooperação globais. O crescimento equilibrado de seu imenso comércio externo permitirá mais estabilidade e dinamismo na economia global. Com determinação estratégica o país avança para ocupar o lugar que lhe cabe,mas compartilhando com os seus parceiros os frutos de seu desenvolvimento acelerado e de seus avanços tecnológicos.
(*) José Nelson Bessa Maia, ex-secretário de Relações Internacionais do Governo do Ceará, é mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente, é consultor internacional.