domingo, 19 de julho de 2026

As Relações China-EUA e a Armadilha de Tucídides

Foto: Ilustração
Foto: Ilustração

 

Por José Nelson Bessa Maia*

Na recente visita do presidente americano Donald Trump à China, o presidente chinês Xi Jinping mencionou uma armadilha da geopolítica clássica para alertar sobre o risco histórico de conflito entre uma potência emergente e uma potência em declínio. O Sr. Xi então questionou se a China e EUA podem transcender a chamada ‘Armadilha de Tucídides’ e construir um novo paradigma de relações entre grandes potências.

A ideia central da fala de Xi foi reconhecer que a ascensão da China pode gerar medo estratégico nos EUA, além de advertir que rivalidades históricas entre grandes potências frequentemente terminam em guerra e defender que ambos os países evitem em conjunto repetir o padrão da Guerra do Peloponeso na Antiguidade Clássica.

O conceito antigo foi popularizado mais recentemente pelo professor americano Graham Allison em seu livro “Destined For War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap” (2018), inspirado no relato do historiador Tucídides (460-400 A.C) sobre a Guerra do Peloponeso: “Foi o crescimento do poder de Atenas e o medo que isso causou em Esparta que tornou a guerra inevitável.”

A tese central do livro de Graham Allison sobre a Armadilha de Tucídides é que, quando uma potência emergente ameaça destronar uma potência dominante estabelecida, o medo e a tensão resultantes tornam a guerra significativamente mais provável, mesmo que nenhum dos lados deseje de fato o conflito.

Os pontos principais da obra de Allison são que o risco não advém apenas de más decisões, pois a ameaça de conflito provém da própria situação (transição de poder), e não apenas das escolhas idiossincráticas dos líderes. A potência dominante teme o declínio; ao passo que a potência emergente exige reconhecimento. Essa dinâmica gera suspeita e reações exageradas.

Em seu estudo de 16 casos históricos, Allison concluiu que a maioria terminou em guerra, embora alguns a tenham evitado por meio de diplomacia cuidadosa. Por fim, o autor usou essa estrutura de pensamento para analisar as tensões atuais entre os EUA e a China, alertando que, sem um esforço deliberado, ambos os países podem cair na mesma armadilha.

O que mais chama atenção nessa armadilha em curso na ordem global é o risco de uma fatal e fatídica Terceira Guerra Mundial, em que ambas as potências nucleares mais a Rússia poderão, ao se enfrentarem, destruir a vida na Terra como a conhecemos.

Esse desenlace fatal havia sido evitado via negociações e dissuasão estratégica, desde 1945 até o colapso da União Soviética em 1991, preservando, assim, a paz entre as grandes potências, mas com direito a patrocinar infindáveis guerras e conflitos por procuração em suas respectivas áreas de influência, mantendo o equilíbrio geral de poder nuclear. Ocorre que o desespero da liderança americana atual em tentar preservar sua hegemonia em um mundo em que a China caminha para ultrapassar a economia dos EUA cria riscos imponderáveis que podem desencadear uma hecatombe nuclear.

Nesse contexto de extremo perigo para a humanidade, a postura chinesa para o diálogo franco pela via da diplomacia é um chamado ao bom senso e à gestão responsável e compartilhada nessa fase de transição da ordem internacional. A guerra nuclear não é inevitável, mas evitá-la exige liderança excepcional, autocontenção e consciência estratégica de limites para poder gerenciar com moderação a dinâmica perigosa de uma mudança de poder sistêmico em curso no cenário global.

 

(*) José Nelson Bessa Maia, ex-secretário de Relações Internacionais do Governo do Ceará, é mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente, é consultor internacional.

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