Por José Nelson Bessa Maia*
Os ataques em curso dos EUA e Israel contra o Irã constituem grave ameaça à paz mundial e a estabilidade da economia global. Repete-se a agressão a um país do Oriente Médio sem nenhuma justificativa cabal. Um ataque bélico sem declaração formal de guerra e sem sequer a aprovação legislativa, enquanto havia conversações diplomáticas entr
Trata-se de um ataque covarde e cruel com vistas a eliminar fisicamente a elite dirigente iraniana e festejado como grande feito, sob a promessa de promover mudança de um regime e voltar a entronizar a antiga elite monárquica iraniana subordinada aos interesses do Ocidente e capaz de abrir mão do controle nacional sobre os seus recursos naturais.
Assiste-se, portanto, a uma verdadeira releitura da “Geopolítica do Caos”, termo cunhado pelo jornalista Ignacio Ramonet em seu ensaio de 1997 em que defendia que o paradigma de comunicação global aferidor da lógica de mercado, cujo modelo central seriam os mercados financeiros, valoriza a teoria dos jogos e a teoria do caosde Edward Lorenz em detrimento da mecânica newtoniana.
É então sob a roupagem de numa nova mecânica, ou na ausência dela (a incerteza e a insegurança), em que se assenta o atual sistema de relações internacionais. As ações agressivas da atual administração norte-americana seriam justamente os instrumentos dessa nova mecânica geopolítica que coloca o mundo à beira de uma conflagração geral.
Na verdade, o ataque preventivo ao Irã faz parte de uma estratégia desesperada dos EUA de retomar o controle sobre o Oriente Médio e de seus abundantes recursos energéticos para enfraquecer a segurança da China e colocá-la mais dependente de fornecimentos de petróleo do Oriente Médio administrados por empresas americanas ou ocidentais, visto que a China importa da região cerca de metade do petróleo que consome.
Como os EUA já controlam a Arábia Saudita, o Iraque e os pequenos países do Golfo, onde mantêm bases militares (por isso que estão sendo bombardeados pelos mísseis iranianos), falta só derrotar o atual regime do Irã para poder exercer o controle total sobre o petróleo e gás da região. É simples assim.
Nesse contexto externo ameaçador cabe ao Brasil agir com cautela e se movimentar no tabuleiro global de uma forma a não atrair a atenção do hegemon ensandecido, mas buscando sempre preservar seus interesses nacionais e a cooperação com os seus principais parceiros comerciais e com os demais países do sul global.
A julgar pela situação interna nos EUA há razões para crer que o atual governo americano não se sustente até o fim do mandato e que a sua oposição política consiga vitória nas próximas eleições de novembro, com o que os EUA possam restabelecer parte de sua credibilidade internacional perdida e voltar a se comportar de forma responsável e como um elemento de estabilidade no concerto das nações civilizadas.

José Nelson Bessa Maia*, ex-secretário de Relações Internacionais do Governo do Ceará, é mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente, é consultor internacional.








