quarta-feira, 10 de junho de 2026

Por que o Brasil incomoda tanto a certos países?

 

Por José Nelson Bessa Maia*

No contexto atual o Brasil é visto como parceiro relevante, um mercado promissor e uma potência regional estável. No entanto, o país pode, sim, gerar desconforto, rivalidade ou desconfiança. Esse “incômodo” decorre do tamanho e do potencial de um país no sistema internacional. Eis a seguir algumas dimensões pelas quais o Brasil pode ser percebido como um ator que “incomoda” outros países.

Somos um dos maiores países em território, população e PIB, ocupando uma posição de destaque em qualquer métrica de escala. Essa dimensão, por si só, já o coloca em patamar distinto. Países grandes tendem a ser observados com mais atenção e cautela.

Ademais, o Brasil possui imensas reservas de recursos naturais. A Amazônia, por exemplo, não é apenas um ativo nacional: é vista lá fora como patrimônio global devido ao seu papel no clima e na biodiversidade.

Em segundo lugar, o Brasil “incomoda” pelo seu agronegócio, uma vez que somos um dos maiores exportadores de soja, carne bovina, milho, açúcar, suco de laranja e café. Essa posição desafia a de outras regiões.

Blocos como a União Europeia (UE), por exemplo, impõem barreiras fitossanitárias e ambientais ao Brasil. Embora tais medidas sejam alegadas como justificadas, há claro protecionismo. O acordo entre Mercosul e UE, postergado por décadas, ilustra bem esse problema.

Outro aspecto que chama atenção é a posição de potência emergente ao lado de países como China, Índia e Rússia. O Brasil integra fóruns como o Briscs, que busca reformar a governança global e reduzir a predominância de potências tradicionais. Essa atuação gera desconforto quando o Brasil defende mudanças no Conselho de Segurança da ONU ou no sistema financeiro internacional.

Ao pleitear maior influência, o país desafia o status quo. Além disso, o Brasil quase sempre tem uma política externa autônoma, evitando alinhamentos automáticos. Essa postura é vista como ambígua ou imprevisível por parceiros tradicionais.

O quarto aspecto é a questão ambiental onde a Amazônia é, novamente, foco de debate. As políticas ambientais brasileiras têm repercussão. Surge, então, o dilema soberania nacional versus responsabilidade global.

Ademais, o Brasil possui potencial em energias renováveis, como hidrelétrica, eólica, solar e biomassa, além de reservas de minerais estratégicos, como as chamadas “terras raras”. Isso o coloca em posição de realce, mas também aumenta a cobiça externa.

Por fim, cabe destacar que “incomodar” outros países é um sinal de que o país tem peso e capacidade de afetar o mundo. Países irrelevantes não incomodam. Trata-se o Brasil de um país que, mesmo com desafios internos, possui influência global. Se bem conduzido, o “incômodo” pode se tornar um ativo, um sinal de que estamos ocupando o espaço que nos cabe no mundo.

*José Nelson Bessa Maia, ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais.

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